sábado, 6 de novembro de 2010

Nova Refeição

Um garoto, cerca de 10 anos, está na mesa com um prato enorme de salmão grelhado e um arroz cheio de frescuras (que nem me arrisco a descrever, pois lá há as presenças das coisas mais estranhas- e chiques- do mundo.), mas ele não parece muito interessado na comida, tanto é que sua mãe pergunta a ele, preocupada:

-Gustavinho! Porque você não come seu salmão au monteneblaux? Está divino!

-Não, mãe, eu quero outra coisa...

-O que? Quer um escargot? Pode deixar. Eu mando a Madalena preparar um agora...

-Não, eu quero iogurte estragado. Do lixo.

-O quê?

-Eu quero iogurte estragado.

A mãe fica estarrecida, pensa um pouco, balbucia algo, mas desiste. Chega à pergunta mais lógica:

-Por que, meu amor? Por quê?

-Ué mãe, parece gostoso.

-Como você pode achar isso gostoso?

-Na verdade, eu não achava, mas quando a gente estava voltando da natação...

-Você teve vontade de comer lixo?

-Não, quer dizer, sim... É que eu vi na rua um garoto e uma mulher. Eles estavam revirando o lixo e quando encontraram um iogurte estragado ficaram muito felizes, parecia um banquete para eles, deve ser bom.

-Meu filho! Não é bom não, coma seu salmão e esqueça isso.

-Mas, se não é bom, por que eles ficaram tão felizes quando acharam o iogurte?

-Porque...

É aí que a mulher se sentiu em uma sinuca de bico, ela falaria a verdade para seu filho, ou inventaria uma mentira para não alongar a conversa? Optou pela verdade, afinal o Gustavinho é muito inteligente, ele vai entender.

-Eles gostam disso, querido, porque eles não tem muito o que comer, eles passam fome. Então até lixo é bom para eles, pois alimenta.

-Mas, mãe, por que a gente come tanto e tem tantas opções, enquanto eles comem lixo?

-Ah, a sociedade é assim. É a lei do mérito próprio.

-Como assim?

-É simples filho, nós somos inteligentes e temos uma mentalidade que nos faz alcançar a riqueza e o sucesso. E eles não.

-Mãe, então a mentalidade certa é passar o dia fazendo compras que nem a senhora faz?

-Hmmmm... Não, filhinho, é que eu aproveito o dinheiro do seu pai. É ele que sustenta todos nós. É o como ele trabalha que nos traz dinheiro. Por isso que nós estamos nesta excelente condição.

-Trabalho? O papai nem trabalha, mamãe, ele só faz algumas ligações e manda o pessoal fazer tudo sozinho.

-Pare de mentir, garoto! Seu pai é muito trabalhador!

-Mas, mãe, pense comigo: Como o papai ganha dinheiro?

-Ele é dono de uma fábrica de sapatos.

-E é ele que faz os sapatos?

-Não, são os operários.

-É ele que projeta os sapatos?

-Não, são os designers.

-É ele que vende os sapatos?

-Não, são os vendedores.

-Então, o que ele faz?

-Ele gerencia a fábrica e as vendas.

-Ou seja: Não trabalha.

-Calado! Vá para o seu quarto, já! E não saia de lá até se arrepender do que disse!

-Eu só vou quando você me responder.

-Responder o que?

-Porque eles comem lixo enquanto nós comemos salmão?

-Espere aí que eu vou buscar algo para te responder.

A senhora foi e, quando voltou, o menino saiu correndo para o quarto.

Ela tinha buscado o cinto.

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