Às vezes, surpreendo-me como uma imagem pode gerar tantas discordâncias. Uma foto dos moradores do Pinheirinho – munidos de precários armamentos, que fariam qualquer traficante ou PM rir --, como aquelas fotos de ilusão de ótica, suscitou dois tipos de interpretações completamente divergentes.
Uma delas foi explicitada pela ex-vereadora Soninha, que chamou aqueles indivíduos de criminosos, consoante se percebe na imagem acima. A reação dessa mulher representa a majoritária parte da elite brasileira, cujos ideais pregam que a valorização da propriedade privada e da “ordem” está acima de tudo. Mais que isso, esse grupo crê veementemente que qualquer tentativa de mudança social por parte das classes oprimidas não passa de desordem e atuação criminosa. Mentalidade idêntica à apresentada pelos torturadores da ditadura militar.
Em contrapartida, houve a reação de uma de pessoas que se solidarizaram com os habitantes da terra que foi invadida pela polícia militar. Vários exemplos poderiam ser dados; creio, contudo, que um único basta, o meu, porquanto eu sei tudo que passou pela minha mente quando vi a tão comentada foto. Não vi bandidos na foto (talvez eu precise de óculos), na verdade, focalizei um povo trabalhador, sofrido, que – de tão acostumado com a paz – não sabia nem se armar direito. Cada mão que empunhava um pedaço de pau – algo inofensivo às balas dos policiais – não parecia disposta a matar por sadismo ou por dinheiro; parecia disposta a defender seu bairro, um lugar que foi construído por essas mãos, um lugar que essas pessoas aprenderam a chamar de lar.
Quando vi aquela imagem, não me pareceu que a ordem estava ameaçada; pareceu-me que ela estava pronta para ser criada, porquanto um mundo no qual a vontade um megaespeculador vale mais que a de 1,2 mil famílias não se presencia a ordem; presencia-se o caos. Em um planeta melhor – com verdadeira ordem -, a dignidade dessas famílias seria muito mais importante do que a sacrossanta propriedade privada e só há um jeito dessa nossa situação melhorar: com a mobilização dos oprimidos, que, ao lutarem por seus Direitos, conseguem benfazejas conquistas à sociedade. Por isso, eu vi, na foto, uma chama de esperança, vi o povo lutando por um Brasil mais justo e, destarte, desejei sucesso a esse grupo sofrido.
A polícia, todavia, conseguiu surpreender os moradores do Pinheirinho e, de forma truculenta, despejaram-nos de suas terras. Minha indignação aumentou brutalmente, em quase todos os setores da “desocupação” havia violações à integridade humana – o povo foi mal acomodado, usou-se violência para tirar as pessoas de suas casas, demoliram-se residências com móveis dentro e houve pistas de óbitos que não foram esclarecidos pela PM -, minha esperança diminuiu e deu lugar a um sentimento lúgubre; enquanto isso, ex-vereadores comemoram a manutenção da “ordem”.
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Outro fato: a repórter tentou se explicar e disse que, no Pinheirinho, não há só criminosos ou só gente trabalhadora; há os dois. Constatação óbvia, visto que até nos condomínios fechados, como Alphavilles da vida, há criminosos. A diferença é que os meliantes do Pinheirinho são traficantes que morrem aos 22 anos baleados; os criminosos do Alphaville são empresários que sonegam milhões de impostos, juízes que ferem a constituição para receber “uma grana por fora” e pessoas que cometem outros tipos de crime, enriquecem e não são punidas.
