domingo, 24 de julho de 2011

A Dúvida Cartesiana como auxílio à política

A Dúvida Cartesiana como auxílio à política

Descartes foi um filósofo que, visando descobrir a verdade geral e inegável, refutou as próprias ideias iniciais e, dessa forma, passou a duvidar de todas as ideias e raciocínios que tivesse. Essa ação, todavia, não pode ser caracterizada como um posicionamento cetiscista, afinal, como explicou o próprio autor, essa dúvida não vinha com o intuito de negar a existência de uma verdade, vinha, sim, como um instrumento que o auxiliaria a, finalmente, chegar a esse conhecimento irrefutável.

Eis aqui um trecho em que o criador do método ressalta o que foi comentado no primeiro paragrafo: “extirpava do meu espírito todos os equívocos que até então nele se houvessem instalado. Não que imitasse, para tanto, os céticos, que duvidam só por duvidar e fingem ser sempre indecisos: pois, ao contrário, todo o meu propósito propendia apenas a me certificar e remover a terra movediça e a areia, para encontrar a rocha ou a argila.”.

Tais dúvidas ajudaram imensamente Descartes na descoberta da, para ele, primeira verdade indubitável: “Penso, logo existo”. Será que tão palpável e genial ideia seria formulada sem o incansável questionamento que o filósofo aplicava em suas teorias? Provavelmente, não.

Aceitando que a dúvida cartesiana tem efetividade e funciona em uma ciência tão subjetiva quanto a filosofia, pode-se formular um raciocínio sobre qual seria sua aplicabilidade em outras como, por exemplo, a política. É, justamente, sobre isso que este texto trata. Elencar-se-ão, aqui, as vantagens que esse instrumento pode trazer na execução de cargos públicos.

Não tenho nenhum conhecimento superior em ciências políticas, por isso minhas conclusões serão simplórias e evidentes, com o único objetivo de suscitar a reflexão em mentes mais iluminadas que a minha.

É conceito sedimentado pelo senso comum que a principal função de um político é garantir o bem-estar da sua população e do estado. Então, fazendo uma breve comparação, o bem-estar geral seria a verdade indubitável, o objetivo que deve ser procurado. Dessa forma, imagina-se que, ao inserir a dúvida metódica na mente do político, o indivíduo comentado deve questionar, primeiro, suas próprias ideias: “Será que minha proposta de governo levará, realmente, as pessoas a uma vida melhor?”. Fica evidente que alguns ideais seriam de pronto esvurmados. Entre eles estariam o nazismo, por exemplo, que geraria um inicial mal à população para que alguns sortudos pudessem, posteriormente, usufruir de benefícios. Poder-se-ia passar uma era julgando cada ideologia, porém isso demoraria muito, portanto, o mais justo é que cada um, individualmente, reflita se seus posicionamentos políticos levam a esse caminho.

Depois, deve-se passar a atenção sobre as pessoas que comporão o seu governo. “Esse indivíduo tem a competência e a ética necessária para trazer benefícios ao povo e ao estado?”. De certo modo, é isso que a Dilma deveria se perguntar ao fazer a “faxina” no ministério de transportes. Para seguir - ainda mais - o pensamento Cartesiano, a presidente deveria, primeiro, expulsar todos os funcionários e, a partir daí, compor seu novo ministério. Todavia, da mesma forma que Descartes formulou uma moral provisória após negar todas as suas ideias, a partidária do PT precisaria de um ministério provisório. Essa maciça demissão não caracterizaria uma opinião da chefe de estado de que não existem políticos honestos. Caracterizaria, sim, que ela tomou essa decisão para chegar à melhor composição possível de ministério.

Por conseguinte, pode-se chegar à ilação de que a dúvida cartesiana acrescentaria muito à política brasileira se fosse adotada por todos os parlamentares e representantes do executivo. Afinal, levaria as pessoas a uma maior reflexão sobre como chegar ao bem-comum e, dessa forma, corrigiria muitos erros. Assim, torna-se evidente que Saramago estava coberto de razão quando falou que “A filosofia deveria ser incluída entre os direitos humanos, e toda a gente teria direito a ela”.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O Porquê dos Brasileiros não se Revoltarem

João sai de casa, são sete horas da manhã, mas ele não sabe. Esse desconhecimento dele quanto à tão importante informação deriva de dois motivos principais: ele não consegue acumular capitais suficientes para a aquisição de um relógio que dure mais que uma semana e, também, não lhe serviria muito bem um marcador de horas por causa de seu trabalho. João é carrinheiro. Na hora de levantar o lixo, pegar latinhas e empurrar o pesado carro, geralmente, ele suja o próprio pulso e, casualmente, bate-o em superfícies duras, como a tampa de um lixão. Assim, torna-se evidente que um apetrecho como o já citado, mesmo que de qualidade, não resistira muito à dura rotina que João vivencia.

Nosso personagem, não obstante, não sente falta desses objetos, que julga meramente supérfluos e desnecessários. Claro, ele não os descreveria dessa forma, afinal, fora obrigado a largar a escola aos onze anos para ajudar a família. Não pensemos, por favor, que o carrinheiro tenha origens despóticas. A mãe dele teve que optar: ou o filho ajudaria nas despesas, ou eles morreriam de fome. Analisando por esse lado, foi, de certa forma, uma sábia decisão que a matriarca tomou. Devido aos motivos já elencados, o esforçado trabalhador comentaria isto sobre um apetrecho dotado da função de avisar o horário: “Não me ajuda em nada, não.”.

Na verdade, qualquer tipo de amenidade, como os dois primeiros parágrafos, é completamente olvidada por João. Não é que ele seja um monstro sem coração que não se emocionaria com o contato com as artes. Ele até, uma vez, compôs uma canção para uma jovem que, futuramente, tornar-se-ia sua mulher. O destino, todavia, surpreende-nos. Tanto é que a garota engravidou e, desde o nascimento da criança, o patriarca teve que suar para garantir o pleno sustento de sua família que, agora, conta com mais quatro componentes – três outros filhos e a mãe de sua esposa – que, como todo ser vivo, precisam de alimento.
Para cuidar dessa numerosa prole, ele trabalha incessantemente por dez horas. O leitor pode pensar: “Eu também trabalho dez horas e não vi nenhuma história sobre mim.” Porém, eu gostaria de arguir que a labuta do personagem dessa história não é simples como digitar memorandos. São dez horas de contato com sacos fétidos, ruas malcuidadas, objetos cortantes e, o pior, jovens limpinhos que, transbordando jactância e preconceito, olham-no com nojo e medo. No primeiro dia que isso aconteceu, João se indignou e decidiu que trocaria de trabalho. Porém, com a demora de ofertas de novos empregos, e a pressa da escassez de dinheiro, ele acabou se sujeitando a esses olhares e voltou à mesma desgastante função.

Por conseguinte, o carrinheiro chega sempre exaurido em casa e, pouco antes de ir dormir, vê um pouco de televisão, naquele canal que todo mundo assiste. Mal sabia ele, mas haveria algo de diferente na televisão, que o faria ver o quão ignorantes são os “homens da TV”.

Ao ligar o equipamento eletrônico, surge, na tela, um homem todo empetecado, em um terno chique, que brada ao povo: “por que os brasileiros não se indignam com esse atentado à moralidade que vem ocorrendo? Por que o povo não se revolta contra essa ominosa corrupção que assola o sistema governista? Por que a população não derruba essa presidente e o seu antecessor que introduziram esses males no Brasil? Levantemo-nos e derrubemos esse governo populista e criminoso! Esvurmemos essa acerba corja que controla nosso país!”.

Depois de tão inepto discurso, João olha para a mulher, que, prontamente, questiona-o, “Por que nós não fazemos nada?”. Ele pensa um pouco e, depois, rebate: “Olha, que eu saiba, corrupção já teve em tudo quanto é governo, político geralmente é safado mesmo. E mais: esse pessoal aí me parece menos pior, afinal, pelo menos, agora nossos filhos conseguem ir pra escola e nós não estamos passando tanta fome quanto já passamos”. A esposa fica orgulhosa e exclama: “Vixe! Meu marido é quase um político!”. João ri e, posteriormente, vai dormir. Em pouco tempo ele esquece a história e volta às suas rotineiras atividades. Afinal, como já dissemos, qualquer tipo de amenidade é completamente olvidada por João.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Exame da OAB e decisões judiciais

Saíram os resultados do último exame da OAB para a acepção de advogados. O resultado foi vexaminoso: apenas 9,7% dos candidatos foram aprovados. Muitos alunos, que parecem mais interessados nos churrascos e festas, criticaram a instituição, bradando que o exame era, simplesmente, muito difícil.

Realmente, o nível de exigência da prova é bem alto, todavia, não é admirável que seja realizado um teste para admitir, apenas, bons profissionais no mercado de trabalho? Outro ponto essencial da prova é que, a partir dela, pode-se julgar - com o mínimo nível de tendenciosidade - a qualidade dos cursos de direito no país. Na verdade, a rigidez na aplicação me parece mais benéfica que ruim, afinal, revela o como a educação do Brasil vem sendo inócua ao tentar fazer com que se produzam profissionais competentes.

As notícias, porém, não vêm mostrando uma excelência incorruptível nos profissionais de direito. Houve o caso do juiz em Goiás que, contrariando a jurisprudência, vetou a união civil entre homossexuais na cidade dele. Isso foi um ato indigno, injusto e, ainda por cima, contra a lei e o bem dos seres humanos. Todavia, quando se imaginava que nenhum juiz poderia atropelar os direitos humanos de forma maior, surge esta notícia: http://www.viomundo.com.br/denuncias/sakamoto-justica-manda-suspender-libertacao-de-trabalhadores-no-ms.html . A juíza Marli Lopes Nogueira, de forma esdrúxula, suspendeu um resgate a trabalhadores que viviam, praticamente, em escravidão e, ainda, definiu que os, explorados, funcionários deveriam voltar à labuta porque " a interdição está causando prejuízos irreversíveis".

Pode-se aferir, por conseguinte, que - mesmo que seja louvável a tentativa da OAB de selecionar os melhores profissionais e, dessa forma, mostrar o quão defasado está o sistema educacional do nosso país - sucesso em provas difíceis não garante respeito à vida dos nossos concidadãos e nem compromisso com a ética.