quarta-feira, 20 de julho de 2011

O Porquê dos Brasileiros não se Revoltarem

João sai de casa, são sete horas da manhã, mas ele não sabe. Esse desconhecimento dele quanto à tão importante informação deriva de dois motivos principais: ele não consegue acumular capitais suficientes para a aquisição de um relógio que dure mais que uma semana e, também, não lhe serviria muito bem um marcador de horas por causa de seu trabalho. João é carrinheiro. Na hora de levantar o lixo, pegar latinhas e empurrar o pesado carro, geralmente, ele suja o próprio pulso e, casualmente, bate-o em superfícies duras, como a tampa de um lixão. Assim, torna-se evidente que um apetrecho como o já citado, mesmo que de qualidade, não resistira muito à dura rotina que João vivencia.

Nosso personagem, não obstante, não sente falta desses objetos, que julga meramente supérfluos e desnecessários. Claro, ele não os descreveria dessa forma, afinal, fora obrigado a largar a escola aos onze anos para ajudar a família. Não pensemos, por favor, que o carrinheiro tenha origens despóticas. A mãe dele teve que optar: ou o filho ajudaria nas despesas, ou eles morreriam de fome. Analisando por esse lado, foi, de certa forma, uma sábia decisão que a matriarca tomou. Devido aos motivos já elencados, o esforçado trabalhador comentaria isto sobre um apetrecho dotado da função de avisar o horário: “Não me ajuda em nada, não.”.

Na verdade, qualquer tipo de amenidade, como os dois primeiros parágrafos, é completamente olvidada por João. Não é que ele seja um monstro sem coração que não se emocionaria com o contato com as artes. Ele até, uma vez, compôs uma canção para uma jovem que, futuramente, tornar-se-ia sua mulher. O destino, todavia, surpreende-nos. Tanto é que a garota engravidou e, desde o nascimento da criança, o patriarca teve que suar para garantir o pleno sustento de sua família que, agora, conta com mais quatro componentes – três outros filhos e a mãe de sua esposa – que, como todo ser vivo, precisam de alimento.
Para cuidar dessa numerosa prole, ele trabalha incessantemente por dez horas. O leitor pode pensar: “Eu também trabalho dez horas e não vi nenhuma história sobre mim.” Porém, eu gostaria de arguir que a labuta do personagem dessa história não é simples como digitar memorandos. São dez horas de contato com sacos fétidos, ruas malcuidadas, objetos cortantes e, o pior, jovens limpinhos que, transbordando jactância e preconceito, olham-no com nojo e medo. No primeiro dia que isso aconteceu, João se indignou e decidiu que trocaria de trabalho. Porém, com a demora de ofertas de novos empregos, e a pressa da escassez de dinheiro, ele acabou se sujeitando a esses olhares e voltou à mesma desgastante função.

Por conseguinte, o carrinheiro chega sempre exaurido em casa e, pouco antes de ir dormir, vê um pouco de televisão, naquele canal que todo mundo assiste. Mal sabia ele, mas haveria algo de diferente na televisão, que o faria ver o quão ignorantes são os “homens da TV”.

Ao ligar o equipamento eletrônico, surge, na tela, um homem todo empetecado, em um terno chique, que brada ao povo: “por que os brasileiros não se indignam com esse atentado à moralidade que vem ocorrendo? Por que o povo não se revolta contra essa ominosa corrupção que assola o sistema governista? Por que a população não derruba essa presidente e o seu antecessor que introduziram esses males no Brasil? Levantemo-nos e derrubemos esse governo populista e criminoso! Esvurmemos essa acerba corja que controla nosso país!”.

Depois de tão inepto discurso, João olha para a mulher, que, prontamente, questiona-o, “Por que nós não fazemos nada?”. Ele pensa um pouco e, depois, rebate: “Olha, que eu saiba, corrupção já teve em tudo quanto é governo, político geralmente é safado mesmo. E mais: esse pessoal aí me parece menos pior, afinal, pelo menos, agora nossos filhos conseguem ir pra escola e nós não estamos passando tanta fome quanto já passamos”. A esposa fica orgulhosa e exclama: “Vixe! Meu marido é quase um político!”. João ri e, posteriormente, vai dormir. Em pouco tempo ele esquece a história e volta às suas rotineiras atividades. Afinal, como já dissemos, qualquer tipo de amenidade é completamente olvidada por João.

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