Jão acordou e viu, subitamente a imagem de, seu amigo de longa data, Zé.
-Jão...
-Que foi, Zé? Que que você quer comigo, agora?
O sonolento homem tentou parecer furioso com o companheiro, mas ele não conseguia. Na verdade, adorava quando era acordado assim. Seu irmão de outra mãe, sim, a relação deles não poderia ser menor que isso, sempre soube anima-lo. Nesses momentos difíceis, ele o acordava no meio da madrugada. Geralmente para contar uma piada ou uma notícia engraçada, Jão esperava ansiosamente pelos momentos em era acordado à noite.
-Nossa vida é bem dura, né?
-Sim, é sim.
Estranhou essa frase dita pelo outro, será que Zé tinha percebido que a vida não é uma anedota? Será que ele finalmente viu que, enquanto eles passam fome nessa rua, pessoas fazem o mal e se dão bem?
-Pois é, ser morador de rua é foda. Será que não tem nada de bom para a gente nessa vida?
Jão gelou. Sim, seu amigo tinha se dado conta de quão vil é esse mundo. Logo ele que sempre fazia esse ambiente irascível ficar habitável, logo ele, que quando chegou na calçada como novo morador de rua, contou a famosa piada do aluguel. Logo ele.
Rememorou-se do dia em que o conheceu, Jão já era acostumado à viver na rua. Nasceu em família pobre, com pai alcoólatra, até que fugiu de casa e ficou morando nas ruas. Conhecia bem demais os lugares e tinha certeza que ninguém lidava tão bem com aquilo quanto ele. Até que chegou Zé, que sabia falar, se expressar, até alguns contos ele conhecia! Zé devia ter alguma coisa e a perdeu, mas, mesmo assim, conseguia levar a vida feliz e melhor que o próprio Jão.
Logo a amizade se formou e os dois eram, do grupo de 8 mendigos que dormiam juntos debaixo da ponte Sófocles Queiroz, os mais chegados. Todos adoravam o Zé, ele alegrava o lugar, tranqüilizava-os. Mas, agora, até o mais otimista deles estava cheio. E agora? Quem ia contar as tragédias gregas com um toque cômico? Quem ia tirar sorrisos de homens solitários, pobres, sem dentes nem futuro? Quem ia os fazer esquecer essa injustiça mortal que se chama mundo? Jão estava em pânico.
-Jão! Jão!
-Hã?
-Será que nós temos pelo menos uma vantagem?
Jão ficou mudo.
-Temos sim!- E Zé tirou do bolso um jornal, com uma senhora loira e cheia de plásticas na capa- A Vera Fischer não escreve pra gente! Graças a Deus! Hahahahahahahaha.
A piada foi recebida com risos estridentes, mas eles não riam do valor cômico da frase em si, mas, também, porque Zé estava de volta.
A vida podia ser aturada.
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