quinta-feira, 28 de abril de 2011

Raimunda e o Casamento Real

Raimunda nasceu em um barraco, em uma favela, em condições deprimentes, desumanas. Ou seja: nasceu como bilhões de pessoas desse mundo nascem: sem o direito de usufruir de água encanada, comida abundante e nem de remédios para as mais simples doenças.

Como toda menina, sonhava em encontrar seu príncipe encantado que, no caso dela, tirá-la-ia da casa fétida e da vida de sofrimentos, de privações. Não obstante, a vida passa, e a garota logo desistiu daquela ilusão maluca, resolveu procurar alguém do seu grupo, que estivesse mais acessível. Assim, aos dezessete, conheceu Róbson e engravidou dele. O garoto decidiu que não devia fugir das responsabilidades. Casaram-se cedo.

Logo Raimunda sentiu o quão duro era criar os filhos, sim, nasceram mais três em quatro anos. Porém, o marido sentiu-o mais, pois não conseguia sustentar a família com seu salário de assistente de pedreiro. Muito frustrado ele se sentia cada vez que um de seus descendentes dizia: “Estou com fome.” E sua mulher respondia: “Dorme, meu amor, que a fome passa.” Róbson não resistiu. Afogou suas mágoas na cachaça. Com o tempo, tornou-se alcoólatra, chegava em casa e batia na mulher para gastar a raiva.

Ela até, uma vez, o denunciou com a lei Maria da Penha. Todavia, ele voltava pedindo perdão e dizendo que ia parar. Raimunda acreditava, afinal, o marido sempre fora boa pessoa, sempre fora responsável. Entretanto, ela continuava a apanhar e, desse jeito, ia levando a vida: sendo agredida aqui, deixando de comer pelos filhos, costurando para as vizinhas até os dedos não agüentarem mais e enfrentando esse monstro duríssimo cujo nome é vida.

Até que, vendo televisão, descobriu que o príncipe da Inglaterra se casaria com uma “plebéia”. Então, rapidamente, teve a ideia de escrever uma carta e enviar à mulher que conseguira conquistar o membro da realeza. Naquele pedaço de papel, colocou, em letras tortas, mas caprichadas, o quanto admirava a "Senhora Princesa da Inglaterra". Alegre, Raimunda mostrou a ideia ao marido, que riu da cara dela: “Você acha que eles recebem essas cartas? E mesmo se recebessem, você acha que eles entendem português?”. Triste, ela chorou por um dia inteiro, afinal, não poderia mostrar à princesa o quanto a invejava e orgulhava-se dela. Não obstante, Raimunda levantou a cabeça e deu continuidade a essa vida de fome e injustiça a qual está fadada.

Todavia, como seria bom se a brasileira soubesse que, na verdade, quem merece admiração é ela mesma. Ela e bilhões de mulheres que se sacrificam pelo bem dos filhos, dos maridos e de todos que as exploram.

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