É tendência da mídia incitar o povo para se revoltar contra a corrupção. Essa concepção, todavia, está errada. Esse mal não pode ser esvurmado de um país em um sistema capitalista injusto e competitivo como o nosso. Enquanto ainda houver a cobiça de obter o mais caro automóvel e de usufruir os mais nababescos hábitos, os políticos – e os cidadãos – sempre buscarão meios, dentro ou fora da lei, de enriquecer. Deduz-se, assim, que protestar contra a corrupção não passa de esforço à toa. Urge que as manifestações se voltem para o real problema: esse capitalismo selvagem, que suscita a competição e a autodestruição entre o gênero humano.
Se nosso Estado fosse igualitário e se nossa população estivesse mais interessada em garantir justiças sociais e progressos por meio da mútua ajuda, os furtos ao dinheiro público seriam inexistentes, afinal, supondo que os políticos adquiririam consciência social, eles não cometeriam a nefasta injustiça de usurpar os direitos do povo, este que sofre a cada dia para sobreviver. Nosso país, contudo, é regido pelo princípio da “meritocracia”, que – na verdade – só fomenta as desigualdades e faz com que os ambiciosos cometam os mais nocivos atos para ter “sucesso” na vida.
É verídico que movimentos contra a corrupção, mesmo que com o foco errado, podem trazer benefícios para o povo. Percebe-se, no entanto, que se está criando o mais pernicioso método de criticar a improbidade com o dinheiro público: o meio egoísta. Nada é mais frustrante que ver um indivíduo da classe A, que tem todos os luxos disponíveis, reclamar: “estão roubando o meu dinheiro! Os políticos estão, por meio dos impostos, roubando meu capital!”. Estão, na verdade, deixando de aplicar o dinheiro para melhorar a vida de quem está em más condições. Estão privando a educação de milhões de crianças, estão perpetuando a desigualdade, trazendo injustiça! Os mais abonados não precisam de apoio, não precisam desse dinheiro! Revoltem-se com a corrupção, por favor, mas revoltem-se pelas injustiças que ela traz e não pelo prejuízo do seu bolso!
Os meios midiáticos, para ter sucesso em suas convocações de indignação, usam o argumento individualista, preconceituoso, que só suscita mais competição entre todos. Isso é algo errado, assim a espécie humana nem sobrevirá para reclamar de quem não segue a lei.
Descobre-se, por conseguinte, esta ilação: em um mundo injusto, em um sistema injusto, a corrupção e a desigualdade são inerentes, inevitáveis. Só em um Estado harmonioso e de cooperação é que o furto de dinheiro público será abolido.
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